quinta-feira, 14 de maio de 2009

----------UM CONTO DO URZAL----------

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Era uma vez uma menina
azul celeste de afecto
e a graça de pequenina
enchia casa até ao tecto
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Na quinta onde morava
avós babosos distraía
"Tá-tu" com Ela rodopiava
Pai que outra coisa não via.
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Já cresceu um bocadinho
pela casa aos passinhos
lá corre aquele diabinho,
olhares embevecidos.
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Mãe, cuidados não distrai
de todos lados vêm tias
ver diabrete que ali vai
crescendo todos os dias.
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Ti ti, vô, tá-tu, são Reis
mã, para tudo; são mães
mais um rol de amigos fiéis
ma'ti's, nina, pet', os cães.
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Linda bebé do Urzal
rechonchuda essa petiz
gracinhas são festival
nem dois anos tem Beatriz.
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------------UM GRITO AOS VENTOS------------

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Político? Nem por sombras confesso,
Nem sei se meu pensamento se ajusta.
Mas tento sempre seguir o processo
Que por cá, esta vida a todos custa.
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Revolto-me contra todo o excesso
E contra toda a posição não justa.
Sou a favor da vida em progresso,
Da resolução daquilo que assusta.
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Gritarei ao vulgo, a todos os ventos,
Denuncio aqui e ali, a toda a gente,
Procuro além da letargia dos tempos
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Remédio àquilo que o Povo sente.
Mas porque vendado como jumentos
Nunca soube fazer uso da mente.
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segunda-feira, 27 de abril de 2009

VOANDO COM TEU ESPÍRITO

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No vazio dos meus tormentos
meditava, meditava ...
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E enquanto alto voava
inventava, inventava ...
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E no silêncio que me adormecia
sonhava, sonhava ...
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E quando os ventos me não guiavam
ondulava, ondulava ...
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E enquanto tua voz não surgia
escutava, escutava ...
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E quando na onda me apareceste, calma
regressava, regressava ...
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E no espaço limitado da tua áurea
acordava, acordava ...
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E o sonho tornou-se luz, depois
sorria, sorria ...
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sábado, 4 de abril de 2009

O BERÇO DE LISBOA

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Monte, de pedra cercado

Onde Lisboa foi parida

Vagas de gentio chegado

Por séculos deu guarida.

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Com seu raiar iluminou

Corvo trajado de nojo

No seu castelo poisou

Encantado pelo Tejo.

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Por becos e vielas amada

Os amores de tanta gente

Por marujos cortejada

Às raças indiferente.

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Virada a Sul, sempre bela

Brilha no Tejo a corrente

Aí gerou a caravela

Pousada de São Vicente.

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Da muralha junto ao céu

Vê mar da palha ao longe

Colo onde Lisboa nasceu

Graça que lhe deu São Jorge.

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Não se esconde por um beijo

Nem esquece de quem gosta

Nunca perde tal desejo

A olhar o Tejo da encosta.

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Das ameias se debruçou

Por Alfama foi descendo

Nos bares então sonhou

Seu castelo foi deixando.

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Às colinas se lançou

Daí foi para todo o lado

Em sete luas espalhou

À noite cantando o fado.

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J. Faustino, Março de 2003.

quinta-feira, 19 de março de 2009

A LUZ E AS TREVAS

(DIVAGAÇÕES)
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O que somos sem Ela?
Simples toupeiras? Minhocas?
Morcegos que bem utilizam
As particulas que os cientistas
ainda tentam descobrir?
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Porque procuramos a Estrela
Como láparos a sair das tocas
Quando as trevas já avisam
Que se ensombram nossas vistas
E que o Ocaso vai encobrir?
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Que pensamentos te revela
Quando no silêncio te enfocas
Sob as forças que polarizam,
indicando o rumo e as pistas
que de lá te fazem emergir?
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Quem me responde?
Na longa noite em que o cosmos vive
seremos apenas meros focos de luz?
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José Faustino

sexta-feira, 6 de março de 2009

A SAUDADE E A JUVENTUDE

Aos meus amigos e a quem se reveja nas saudades.
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SAUDADES D'ALDEIA
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Se montes e veredas falassem
talvez em coro cantassem
o que corria aquela mocidade,
mas o Tempo, do jovem é inimigo,
faz das recordações um castigo
p'ra quem se esmerou em liberdade.
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Reinava a paixão perfeita,
porque ao tempo a moça, interdita,
calava, corava e sempre negava
naquilo que ambos sonhavam,
com olhares denunciantes namoravam,
sob o medo da censura que espreitava.
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Rodopiava num qualquer salão,
acertando o passo p'lo acordeão,
bailando p'la madrugada fora.
Foi um sonho que acabou,
p'ra quem não mais dançou
lá onde a saudade mora.
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Sempre vivo nos passos de dança,
quem corre por gosto não cansa
e leva a folia p'ra além do mundo.
Quantas "meias-solas" se gastaram,
nessas noites que não voltaram,
e que a saudade cala, bem fundo.
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Contava as horas p'las estrelas,
quando já o Chico das ovelhas,
madrugava, a anunciar o dia,
mais um baile findava, que pena!
A noite parecia tão pequena,
que já a Alva, atrás do monte nascia.
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Quem não se recorda da Joana,
da Florinda, da Amélia, da Ana,
do Bruno que só tinha olhos p'ra Maria.
Dos ciumes da Rosa e da Joaquina,
do Manel que bailava com a prima,
enquanto a Rita de amor sofria.
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E tudo esse tempo levou,
e aquele jovem jamais voltou
à ribeira que o viu crescer.
Deixou a aldeia por obrigação,
mas guardará, sempre, no coração,
a terra que o viu nascer.
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J. Faustino, Setembro de 2003.

Saudades da aldeia e da infância

. A criança que fui chora na estrada. Deixei-a ali quando vim ser quem sou; Mas hoje, vendo o que sou é nada, Quero ir buscar quem fui onde ficou. .
Fernando Pessoa